Trigo e os três distúrbios relacionados

Recentemente se difundiu um verdadeiro pavor em relação ao consumo do trigo. As dietas “da moda” indicam a exclusão do trigo e tudo mais que contenha glúten da dieta. O glúten é uma proteína não somente presente no trigo mas em outros cereais como a cevada e o centeio, espelta, o bulgur e o couscous.

Trigo e os três distúrbios relacionados

Recentemente se difundiu um verdadeiro pavor em relação ao consumo do trigo. As dietas “da moda” indicam a exclusão do trigo e tudo mais que contenha glúten da dieta. O glúten é uma proteína não somente presente no trigo mas em outros cereais como a cevada e o centeio, espelta, o bulgur e o couscous. A aveia em geral está contaminada com glúten pelo contato com outros cereais durante o transporte e armazenamento, mas além disto ela possui uma proteína chamada avenina que pode também provocar reações em parte das pessoas com distúrbios relacionados ao glúten. Apesar de todo o alarme em relação ao glúten, não há sólidas evidências de que retirar o trigo da alimentação da população saudável gere benefícios. O que existe é um consenso de muitos especialistas da existência de três distúrbios relacionados diretamente ao glúten. Duas delas são muito bem conhecidas e estudadas, a doença celíaca e a alergia ao trigo. A última, ainda pouco desvendada, é a sensibilidade não celíaca ao glúten.

O trigo e a Doença Celíaca (DC)

 

Possivelmente 1% das pessoas sofre com esta doença no mundo. É uma doença autoimune e que envolve uma predisposição genética. Infelizmente muitas pessoas passam anos ou até a vida inteira sem o diagnóstico da doença. Os sintomas clássicos incluem diarréia, perda de peso e desnutrição, mas uma má absorção de vitamina b12, cálcio e ferro também pode levar a uma suspeita da doença. Muitos outros sintomas não clássicos também podem aparecer como sintomas similares a síndrome do intestino irritável, dermatite e uma elevação dos níveis de algumas enzimas produzidas no fígado (como as transaminases). As pessoas com DC podem desenvolver também uma série de sintomas neurológicos como dormência nas mãos e pés, falta de coordenação dos movimentos do corpo, convulsões, ansiedade, depressão e esquizofrenia.

O diagnóstico não é tão simples e provavelmente este é um dos motivos pelos quais muitos celíacos permanecerem sem um diagnóstico. Para um diagnóstico confiável é preciso que a pessoa não esteja já realizando uma dieta sem glúten. Em seguida, é preciso dosar alguns anti-corpos no sangue e, caso se encontre níveis elevados, o passo seguinte inclui uma biópsia do intestino delgado. A partir deste exame é possível observar algumas características como a atrofia das vilosidades e então confirmar o diagnóstico. Caso confirmado, se deve excluir definitivamente o glúten da alimentação. Não há atualmente nenhuma outra terapia efetiva.

Alergia ao Trigo

 

é uma reação do sistema imune a qualquer uma das várias proteínas do trigo. Os sintomas variam de acordo com o tipo de exposição, podendo a alergia ser manifestada como asma e rinite se o contato for pelo trato respiratório ou no caso de alergia alimentar, pode afetar a pele, o sistema gastrointestinal e também o trato respiratório, urticária de contato ou até mesmo provocar uma anafilaxia induzida por exercício. A alergia ao trigo é mais comum na infância, mas o quadro pode não persistir para a vida adulta. Na vida adulta é possível observar quadros mais graves de anafilaxia induzida por exercício. Os sintomas gastrointestinais podem ser muito leves e difíceis de observar, embora os mais comuns sejam diarréia e distensão abdominal. Geralmente quem sofre de alergia não precisa restringir os demais grãos, mas somente o trigo. Outra característica que diferencia da doença celíaca é que é uma reação aguda e não provoca danos irreversíveis no trato gastrointestinal.

O diagnóstico é feito através de testes cutâneos, porém a possibilidade de não se detectar casos positivos e detectar casos negativos por conta de reações cruzadas com outros alergênicos é alta. Os testes mais confiáveis são os chamados testes de provocação que colocam o alimento supostamente alergênico em contato direto, porém são potencialmente perigosos pelo risco de uma reação alérgica exacerbada levando ao choque anafilático. Outros métodos mais seguros “in vitro” estão sendo avaliados, mas ainda encontram algumas limitações técnicas.

Sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC)

 

Esta condição ainda nebulosa precisa ser melhor estudada e compreendida pela comunidade científica. Atualmente se caracteriza como sensibilidade ao glúten todos aqueles pacientes que, após descartados os diagnósticos de doença celíaca ou alergia ao trigo, obtenham melhora com uma alimentação livre de glúten. Antes do diagnóstico de sensibilidade ao glúten é preciso primeiro que descartar a existência dos dois outros distúrbios relacionados ao trigo. A prevalência na população ainda é difícil de estimar, mas a frequência é maior no sexo feminino e na meia idade. No Reino Unido 13% das pessoas se dizem sensíveis ao glúten, porém os diagnósticos médicos não chegam ainda a 1%. Em um estudo duplo cego randomizado, pessoas com a síndrome do intestino irritável tiveram uma prevalência de 28% da SGNC. O quadro clínico é caracterizado por sintomas do trato gastrointestinal geralmente combinados como dor abdominal, distensão, diarréia e/ou constipação, manifestações sistêmicas (cansaço, cefaleia, fibromialgia, perna ou braço dormência, ‘mente nebulosa’, dermatite ou erupção cutânea, depressão, ansiedade e anemia).

Alguns estudos já buscam identificar os mecanismos da SGNC e dentre as descobertas foi possível observar um menor recrutamento de células T reguladoras, importantes para a regulação do sistema imune e também uma permeabilidade intestinal aumentada. O diagnóstico é feito somente por exclusão das outras doenças.

Uma dieta sem glúten traz benefícios e qualidade de vida para pessoas com estes distúrbios (e possivelmente para algumas outras que serão abordadas em um próximo post). É preciso ter cuidado ao excluir o glúten e incluir produtos industrializados sem glúten ricos em farinhas refinadas, açúcares e aditivos. Nestes casos, a magia do sem glúten pode se tornar uma grande decepção para a sua saúde.

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